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Obesidade

Retatrutida: promessa terapêutica e o perigo do uso antes da aprovação

02 de maio de 20252 min de leituraPor Dr. Márcio de Sá Mello

A retatrutida (LY3437943) é uma molécula investigacional desenvolvida pela Eli Lilly que vem despertando enorme entusiasmo na comunidade médica internacional. Trata-se de um agonista triplo dos receptores de GLP-1, GIP e glucagon — uma combinação inédita que amplia o efeito sobre saciedade, gasto energético e oxidação de gordura. Os dados preliminares apontam para um patamar de eficácia ainda não observado com nenhum outro fármaco antiobesidade.

O que os estudos de fase 2 mostraram

No ensaio clínico de fase 2 publicado no *New England Journal of Medicine* em 2023 (Jastreboff e colaboradores), adultos com obesidade tratados com a dose de 12 mg semanais de retatrutida atingiram perda média de peso de aproximadamente 24% em 48 semanas — superando os resultados históricos de semaglutida e tirzepatida nas mesmas durações de exposição. Em paralelo, o estudo de fase 2 em diabetes tipo 2 publicado no *The Lancet* (Rosenstock e colaboradores, 2023) demonstrou redução robusta da hemoglobina glicada e melhora consistente do perfil lipídico.

Por que ainda não é segura para uso clínico

Apesar dos resultados promissores, a retatrutida **não está aprovada** pela FDA, pela EMA nem pela ANVISA. Encontra-se atualmente em estudos de fase 3 (programa TRIUMPH), cujos desfechos de segurança cardiovascular, hepática, pancreática e de longo prazo ainda estão sendo avaliados. O agonismo do glucagon, especificamente, exige vigilância cuidadosa quanto a frequência cardíaca, função hepática e controle glicêmico — efeitos que só serão plenamente compreendidos após a conclusão dos ensaios pivotais.

O risco do uso "off-label" ou por manipulação clandestina

Já circulam no Brasil ofertas de supostas versões manipuladas de retatrutida — uma prática **ilegal, perigosa e antiética**. Sem controle de pureza, dose, estabilidade ou esterilidade, o paciente fica exposto a contaminação, dose imprecisa e ausência de farmacovigilância. Pior: na ocorrência de eventos adversos graves, não há rastreabilidade nem suporte regulatório. Usar um fármaco ainda em investigação fora de protocolo de pesquisa autorizado é submeter-se a um experimento sem rede de segurança.

A postura responsável da medicina baseada em evidências

A retatrutida provavelmente chegará ao mercado nos próximos anos e poderá representar mais um avanço na medicina metabólica. Até lá, a conduta correta é aguardar a aprovação regulatória e utilizar as terapias já disponíveis e validadas — semaglutida, tirzepatida e liraglutida — sempre sob acompanhamento médico contínuo, como discutido em nossos demais artigos sobre cuidado crônico da obesidade.

Referências

1. Jastreboff AM, Kaplan LM, Frías JP, et al. Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial. *N Engl J Med.* 2023;389(6):514-526. doi:10.1056/NEJMoa2301972 2. Rosenstock J, Frias J, Jastreboff AM, et al. Retatrutide, a GIP, GLP-1 and glucagon receptor agonist, for people with type 2 diabetes: a randomised, double-blind, placebo and active-controlled, parallel-group, phase 2 trial conducted in the USA. *Lancet.* 2023;402(10401):529-544. doi:10.1016/S0140-6736(23)01053-X 3. Eli Lilly and Company. A Study of Retatrutide (LY3437943) in Participants Who Have Obesity or Are Overweight (TRIUMPH-1). ClinicalTrials.gov Identifier: NCT05929066. 4. U.S. Food and Drug Administration. Drug Approvals and Databases — Retatrutide status (não aprovado até a data deste artigo).

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